domingo, 4 de maio de 2014

Artigo: Parceria ultrapassada

*Ruben Figueiró

No decorrer das décadas de oitenta e noventa do século passado, nós aprovamos a iniciativa dos presidentes Sarney, do Brasil, e Alfonsin, da Argentina, quando arquitetaram uma aliança de livre comércio entre as nações sul-americanas. Daí surgiu o Mercosul saudado com fogos de artifício e explosões estridentes de esperanças. Teríamos uma espécie idêntica ao do Mercado Comum Europeu, onde as riquezas existentes se transformariam em passo de realizações num potentado econômico.

A euforia era tanta que se tomou por pressuposto desprezar a poderosa nação norte-americana, a qual à mesma época pregava reunir a comunidade das três Américas – a do Norte, a Central e a sulina – sob o pálio de uma nova Doutrina Monroe, agora econômica, a Alca.

Assim, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai coexistiram de braços dados por bons anos com frutos apetitosos para todos os sócios. No entanto, a bonança econômica, como soe ser nessa área de tantas sutilezas, como a comercial, foi perdendo forças, dando vazamento de energias aqui e acolá. Logo surgiu entre os quatro parceiros a cizânia inicial, não por razões de trato econômico, preocupantes, sem dúvida, mas superáveis porque aí presente a iniciativa privada, mas porque os homens de Estado começaram a inocular no sangue do Mercosul o vírus de pensamento político estranho aos objetivos maiores do pacto econômico.

No Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou um trabalho bem urdido embasado no Fórum de São Paulo de expansão política das esquerdas, com base no princípio da solidariedade continental, na condição de padrinho da ideia. O presidente à época Néstor Kirchner, da Argentina, a ele se associou, porém com ideias hegemônicas, ao estilo de um peronismo ultrapassado. Tal política atingiu fundo das relações econômicas entre os parceiros com flagrante marginalização do Uruguai e do Paraguai entre os dois titãs ensimesmados.

Focalizando motivações econômicas a Argentina, já no governo da presidente Cristina Kirchner, vem acicando o governo brasileiro com medidas restritivas às exportações brasileiras, este tem reagido timidamente para irritação do setor exportador nacional e sob o pasmo da sociedade brasileira a covardia de sua diplomacia. Hoje, o que se vê é a submissão do governo brasileiro aos caprichos do Kircherismo dos pampas argentinos.

É evidente que as peias que nos prendem a esse tratado perderam a solidez, os fios fortes e ajustados do passado, perderam consistência, estão rotas. Penso que o Uruguai já tem um razoável ranço com a Argentina; penso que o Paraguai, com o passa-moleque que levou sob a liderança da Argentina quando foi suspenso do Mercosul, não vê sentido em sua permanência no pacto. A presença da Venezuela com seu recente debut com sua frágil economia já constitui preocupação principal para o Brasil, face aos recentes calotes financeiros que dela vem levando.

Enfim, está passando da hora de o Brasil abrir suas fronteiras para outras bandas comerciais como aquela que nos acena a comunidade econômica europeia e partir para o delenda Mercosul.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS

terça-feira, 29 de abril de 2014

Requinte de ingratidão

Lula cuspiu pra cima. Os perdigotos que surgiram das palavras do ex-presidente em sua já considerada infeliz entrevista à TV portuguesa demonstraram que ele agora não considera a solidariedade daqueles que o catapultaram ao prestígio de hoje. Dizer que os seus antigos e próximos companheiros nunca lhe mereceram confiança revela um requinte de ingratidão.

A acusação a mais alta Corte de Justiça do país, alardeada com ênfase por Lula no exterior, além de ser injusta, revela o despreparo dele, não só diplomático, que na condição de ex-presidente da República deveria manter, como o despreparo intelectual para quem desejava ser considerado um estadista.

Para mim, o ex-presidente cometeu um erro irreparável para com seus amigos que lhe foram sempre fiéis e para com o Brasil, ao desmerecer uma de suas mais importantes instituições.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Artigo: Do Pompilho: "quem não quer barulho..."

*Ruben Figueiró

Lá vem o Pompilho com as suas... é só encontrá-lo. Foi o que fiz no final da última semana santa. Estava encantado de reminiscências e recordações de seus tempos gaudérios nas dobradas dos pampas de sua terra Natal, que pra ele se confundem com as serrilhas contornadas pelas águas esverdeadas das cabeceiras do Rio Brilhante, nosso aqui, onde por anos e anos campeiros na doma de burros e mulas baguais, levando no seu basto toda a traieira de cosinha cujo tilintar animava a fogosidade do muar chucro e a alegria dos assistentes: Eta, Pompilho!

Falou das revoluções lá do seu Rio Grande, as de 22 e de 24, como margato arreliado ao lenço vermelho de Assis Brasil, até sua "fuga" para os campos da vacaria de Rio Brilhante, de Entre Rios e Maracaju. Correu, sim, mas para não "carnear" uns chimangos do Borges de Medeiros, atrevidos. Correu, sim, para respeitar os conselhos de sua mãe, extremosa pelo filho. De outra forma, macho de lá não arredaria o pé.

Foi aí, na sua dissertação empolgada de chistes gauchescos, que lembrou de um pingaço arrocinado por ele que muito lembra Aureliano Pinto que dizia em seus versos:

"Entre os cavalos que eu tive
Houve um zaino requeimado
Era bom como um pecado,
De pata e rédea – um relâmpago!
Bonito para um passeio.
Garboso e atirando o freio
Em toda a lida de campo."

Para o Pompilho aquele pingaço de orelhas grandes assim como pombas araganas, era o seu Zaino, fogoso, para um floreio que, ladeando, era um convite para levar uma chinoca na garupa.
Foi longe o Pompilho galopeando nas suas recordações do passado já longínquo. Do presente está atento de preocupações. Disse que jamais pensara que o Brasil chegasse ao ponto de desacreditar em seus dirigentes. Presenciou muita coisa feia em seus tempos de peleias políticas, eleições fraudulentas, império de oligarquias, coronelismos prepotentes e de abas largas; "roubitos" aqui e dali por parte de agentes da receita que se enriqueciam por um "cá toma lá", jamais esse pizeiros que engorda a pança dos que estão lá em cima. É preciso um quebra-queixo nesse povinho, como se fazia no início de uma doma de um pingo.

Ao arremate de nossa conversa, aliás, da dele, (não houve possibilidade de diálogo) e tomou a rédea, se foi, o Pompilho; foi enfático ao recordar-se de uma expressão bem lá de sua querência e da autoria de um lembrado companheiro, Hugo Mardini:

"Quem não quer barulho, não amare porongo nos tentos", e arrematou, está na hora de dar uma guachadas no lombilho desses clinudos baguais e treteiros da Petrobras!

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS

terça-feira, 22 de abril de 2014

Artigo: A mão do gato e o bálsamo



*Ruben Figueiró

Há mais de 60 anos tenho militância na política. O despertar para ela foi num dia do mês de agosto de 1945, quando da visita do Brigadeiro Eduardo Gomes a Campo Grande, em campanha eleitoral para a presidência da República - isso resultante da queda do Estado Novo, o regime ditatorial de Getúlio Vargas. Fui um espectador.

Os anos se passaram e vivi neles momentos que a história de nosso país registra como dos mais importantes para a sua evolução democrática – com percalços, evidentemente. Como espectador, ouvinte ou mero participante, conheci muitos dos atores do que chamaria de "o grande palco da política nacional", aqui incluindo os do nosso Mato Grosso Uno. De um deles, ouvi e gravei: "Quanto mais se vive, mais aguçado fica nosso instinto de espectador". Nada mais exato posso afirmar nesta minha fase outonal da vida.

Aqui, com o instinto de observação da poltrona em que me encontro, vejo que o PT não é tão só o culpado pelo que de preocupante, aos olhos e ouvidos da opinião pública, se lamenta na vida da Nação, e sim o seu maior aliado: o PMDB.

Esse age com a mão de gato. Arranha a vítima (o governo), deixa marcas. Depois, rápido, cobra e bem para lhe aplicar o bálsamo. E o PT a isso se acostumou: após o desastre de sua participação no mensalão e ao registrar o apoio solícito do PMDB em 2002: Lembram-se?

Aí ocorreu a oportunidade e conveniência de sua aproximação com o ardiloso felino e a ele, o PT, entregou-se de corpo e alma, como se assiste. O ex-presidente em arroubos sebastianistas reage. A presidente, com seu temperamento contido, como se permitisse, tal como o chiado de uma panela de pressão, acalma-se com o bálsamo aplicado por hábeis lideranças daqueles que um dia foi o partido da resistência democrática.

Lembram-se, são recentes os atos de estudada rebeldia com que o PMDB acicata o PT na Câmara dos Deputados e logo a seguir vem a ação balsâmica adrede preparada pela maioria peemedebista no Senado e a base do governo se acalma. O que está explodindo nos paiós e depósitos da nossa Petrobrás é o óleo sujo da corrupção, do compadrio, das negociatas. O PT despreparado para deslindar as filigranas dos contratos redigidos em termos de sofisticada malandragem, afundou-se com o episódio de Pasadena. Agora, mais uma vez depende do glutão parceiro para evitar a CPI exclusiva.

Tudo o que acontece no Planalto Central tem repercussão dos pampas sulinos, das florestas úmidas do Amazonas, da Mata Atlântica, do árido Nordeste aos campos e pantanais do Centro-Oeste. Em todos os lugares, dos palácios às choupanas miseráveis dos grotões distantes, o clamor é uníssono: exige-se a CPI, exige-se a apuração da verdade. Aí está a mão do gato e o custo será alto para que ele mesmo aplique o bálsamo em que se transveste o PMDB. O PT é apenas uma figuração animada, atônito. Leva a má fama e o PMDB, pançudo, regurgita e observa.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS

 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Artigo: Leis “fantasia”

*Ruben Figueiró

            Corria o ano de 1980. Deputado federal, fui convidado pela Embaixada dos EUA para participar de um simpósio sobre legislação americana no Departamento de Estado, em Washington. Lá fui compondo delegação de parlamentares, professores de Direito e jornalistas. A visita se estenderia por quatro Estados, desta vez para presenciar o início da campanha presidencial americana, via eleições primárias no seio dos partidos, com destaque nos dois maiores: o Democrata e o Republicano. No simpósio, aliás, interessante pelas personalidades que participaram dos debates, chamou-me a atenção a palestra do professor Valucheck, teórico do partido Democrata, sobre o molde da redação que caracterizava as leis federais americanas, diria pelo seu teor substantivo “curta e grossa”.

Permitiu-se o professor fazer uma comparação com as nossas leis, por ele consideradas adjetivas pela adição de parágrafos e alíneas, os quais, mais das vezes, distorcem o instituído no caput, o artigo 1º.  E deu como possível exemplo: “Aqui nos EUA a lei reza, artigo 1º: É proibido fumar, revogadas as disposições em contrário. No Brasil, o caput da lei é idêntico, porém acrescenta o parágrafo 1º: se o cidadão é maior de 18 anos, pode fumar; parágrafo 2º: se o cidadão for menor de 18 anos e tiver autorização do responsável, pode fumar!”

Claro, senti-me ofendido e reagi à esdrúxula comparação. Depois, analisando-a melhor, notei que ela tinha sentido. Infelizmente esse detalhamento, normal em nossas leis, reflete um sentimento cultural de amarrar a intenção da lei a certas salvaguardas, tornando-a inócua, ou talvez, motivo de interpretações que distorcem seu real objetivo.

Por que me alonguei com esta lembrança retirada do baú envelhecido da memória? Porque se discute nesse cenáculo surreal de Brasília sobre a proibição ou não de recursos de empresas para financiamento aos partidos em campanhas eleitorais. Não discuto a intenção. É honesta e vem do seio revoltado da opinião pública, face aos abusos ocorridos. Porém, considero inaplicável, sobretudo no campo movediço de um pleito onde as regras estão culturalmente estamentadas. Nelas, o ilegal e sua antítese, o legal, se confrontam em favor do primeiro. Diria que não adianta dar uma de Cícero, condenando Verres, pois o mau hábito prevalecerá.

Aliás, o Supremo está decidindo por maioria a proibição e o Legislativo já procura uma saída para tornar “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

Outro detalhe. Inicia-se com sintomas revanchistas campanha para quebrar a espinha dorsal da Lei da Anistia. Lembro-me bem de sua origem quando se entendeu que era o momento de o Regime Militar abrir caminhos de forma lenta, gradual e segura para a restauração da democracia. Consequência imediata foi a Lei da Anistia, aprovada pelo Congresso Nacional, e a ela dei meu voto consciente.

Os resultados, nada obstante, percorrer caminhos pedregosos e episódios cívicos, desaguaram na democracia que hoje nos nutre e ampara. Querem mudar a lei com objetivos cuja transparência é solar: desenterrar a discórdia.

Somando a esse disparate, setores da maioria querem tornar fantasia dispositivos que asseguram impostergáveis direitos da minoria que luta para atender a um clamor nacional pela busca da verdade do que acontece em nossa maior empresa, a Petrobras.

Leis, o Brasil tem a mancheias. Muitas de fantasia e outras sérias que querem transformá-la como tal. Na realidade o que não se tem aqui é cultura para cumpri-las. É isso.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Diplomacia de Estado

Editorial Folha de São Paulo – 05/04/2014

      Encerrou-se nesta semana um ciclo de debates organizado pelo Itamaraty com o propósito de discutir os rumos da política externa do país. Participaram não só membros do Ministério das Relações Exteriores mas também entidades da sociedade civil, acadêmicos, jornalistas e representantes de outros setores do poder público.

      O encontro servirá de base para o Itamaraty produzir o "Livro Branco da Política Externa Brasileira", documento no qual serão apresentados princípios, prioridades e linhas de ação da diplomacia.

 
     É difícil saber que impacto a iniciativa terá sobre o corpo diplomático. Um espírito jocoso poderia até afirmar que, se depender do desinteresse da presidente Dilma Rousseff (PT) pela área, o referido livro será editado apenas com páginas em branco, tal é o grau de retração do Itamaraty nos últimos anos.

     A orientação é uma novidade. No breve hiato entre a vitória nas eleições de 2010 e sua posse, Dilma ofereceu sinais alvissareiros de que promoveria uma bem-vinda adequação na política externa.

     Durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil deu passos equivocados na esfera internacional. Foi o caso do apoio quase incondicional a Mahmoud Ahmadinejad no Irã, apesar das constantes violações aos direitos humanos ali promovidas.

     Pouco havia de pragmatismo nessa aliança com um tradicional inimigo dos EUA. Tratava-se, assim como em outros episódios do gênero, de usar uma política de Estado para satisfazer alas à esquerda do PT, descontentes com a condução mais ortodoxa da economia.

     Reconheça-se que também se verificou, nesse período, salutar aumento do protagonismo brasileiro nos fóruns globais --papel que o país, por seu tamanho e sua história, merece exercer.

     Era clara, portanto, a correção a ser feita: sem abrir mão de seu "soft power" crescente, o país deveria abandonar amarras ideológicas ultrapassadas e recuperar a firme defesa dos princípios universais caros ao Ocidente.

Não se viu uma coisa nem outra com Dilma Rousseff.

     Tome-se a Venezuela como exemplo. Em 2012, o Brasil compactuou com a decisão de suspender o Paraguai do Mercosul de forma sumária, ação orquestrada para Caracas poder integrar o bloco --Assunção vetava o ingresso.

     Neste ano, enquanto Nicolás Maduro reage com violência física e institucional a protestos da oposição, Brasília permanece calada.

     Seria, segundo alguns, um momento de maior discrição da política externa, evitando contenciosos desnecessários. A abstenção diante da anexação da Crimeia pela Rússia se inscreveria nesse contexto.

     Para a maioria dos analistas, no entanto, a situação resulta da desatenção presidencial e da ausência de estratégia --opinião compartilhada inclusive por atuais integrantes do Itamaraty.

     Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, o Ministério das Relações Exteriores vinha procurando conquistar terreno nos fóruns geopolíticos regionais e globais. O fim da ordem bipolar vigente na Guerra Fria abriu caminho para esse tipo de pretensão.

     Não faz sentido que o Brasil, uma das principais democracias e sétima maior economia do mundo, adote uma política externa de mínimo esforço. Quando mais não seja, pelas inúmeras oportunidades de desenvolvimento que boas relações internacionais oferecem.

     Na contramão do que pede a circunstância, o governo Dilma nada faz de concreto para destravar acordos de livre-comércio com outras nações.

     Tratativas do Mercosul com a União Europeia permanecem emperradas pela Argentina, fato que o Brasil aceita como se incontornável fosse. Enquanto isso, progride a Aliança para o Pacífico, iniciativa liberalizante de Chile, México, Colômbia e Peru.

     A falta de visão estratégica também se faz notar nos laços com os Estados Unidos. Se havia a esperança de uma normalização das relações com a indicação de Antonio Patriota, ex-embaixador em Washington, para o cargo de chanceler (do qual se demitiu no ano passado), o escândalo de espionagem americana interrompeu o diálogo.

     Com Dilma na mira das agências de inteligência, era difícil ser de outro modo. Mas a diplomacia, tal como a espionagem, ocorre sobretudo fora dos holofotes. Não há, todavia, esforços para o Brasil se reaproximar dos EUA, maior economia do mundo e segundo mercado para exportações brasileiras.

     Sempre há tempo para mudar, felizmente --ainda mais se, na expressão cunhada pelo chanceler Azeredo da Silveira (1917-1990), "a melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se".

     Passou da hora de o governo Dilma Rousseff formular uma estratégia de inserção internacional pautada por valores democráticos. Uma política de Estado, como o país precisa, e não de partido, como setores do PT desejam.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Artigo: Golpe ou Revolução

*Ruben Figueiró

                Nem esta, nem aquela – na minha avaliação. 1964, após meio século, ainda continua sendo espetáculo que anima discórdias. Sou um dos que, como milhões de brasileiros, estavam na plateia assistindo com natural aflição o embate entre os atores, mas embasados nas ideias das reformas de base que levariam a um abalo nas estruturas econômicas e sociais então vigentes; outras, com teses díspares, a máxima delas na defesa da preservação da Carta Magna de 1946.

                O embate se acalorava com provocações de lado a lado, até que o presidente João Goulart (que não era comunista, nem esquerdista e sim um rico estancieiro nos Pampas e no Centro-Oeste) engolfou-se na lábia de seus assessores próximos e permitiu nítidas manifestações de estímulo à desordem, como o Comício da Central do Brasil e a reunião com os sargentos, ambos na Cidade Maravilhosa. O outro lado agitava-se por meio do Movimento em Defesa da Família, com Deus e pela Liberdade, posicionando-se em defender princípios inarredáveis da cultura nacional, em atos públicos de milhares de pessoas.

                A plateia manifestou-se como num vulcão com lavras incandescentes espraiando-se para a direita e a esquerda em caudais que precisavam ser contidos. Até aí não havia presença de ações militares, estes aguardavam – como ouvi na ocasião de um militar de alta patente – que esperavam a “fruta madurar” para definirem-se. Aconteceu o 31 de março. Foi uma decisão civil, apoiada após pela facção majoritária ou de conveniência no seio das Forças Armadas.

Não foi um Golpe. Com arranhões, sim. A Constituição de 1946 foi preservada em seus pilares fundamentais. Não foi uma Revolução, porque as estruturas das instituições constitucionais foram mantidas.

Golpe, sim, começou a acontecer com o Ato Institucional número II. Primeiro porque extinguiu os partidos políticos tradicionais; segundo porque cancelou as eleições diretas para a Presidência da República. Aí veio o caos, os dias de chumbo que perduraram até surgir um clarão no horizonte em 1980.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS