quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desânimo brasileiro

Um levantamento realizado pelo Pew Research Center, um dos mais conceituados institutos de pesquisa dos EUA detectou que 72% dos brasileiros estão insatisfeitos com a economia brasileira e 85% apontam a inflação como preocupação central.  O retrato é de pessimismo diante do momento atual. Ressalta que num passado bem recente, o clima era de euforia, eu diria até, em tons exagerados.

Essa manifestação negativa detectada na pesquisa decorre justamente daquilo que parecia positivo. Ou seja, os reflexos da Copa do Mundo, que começará em poucos dias. O percentual negativo e nulo em relação ao impacto do megaevento no Brasil suplantam por larga margem o positivo.

Ao Mundial, que deveria gerar otimismo, se somam a inflação, a nula credibilidade quanto às ações públicas na saúde e educação, os efeitos deletérios da corrupção na política, o aumento do desemprego com seus efeitos colaterais, sobretudo com a onda crescente de criminalidade. Tudo isso gera na opinião pública esse clima de descrédito quanto às ações do governo. Assim, é natural que o sentimento geral do brasileiro por mudanças seja crescente.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Artigo: A síndrome do medo

*Ruben Figueiró

Qual é o seu maior medo? Ser assaltado, não receber socorro médico, ficar desempregado? Segundo o dicionário Aurélio medo é “um sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça”. Todo ser humano tem infinitos medos. Valer-se dessa fragilidade como estratégia político-eleitoral em pleno século XXI é uma maneira retrógrada e ultrapassada de convencimento. Esse tipo de marketing não tem reflexo na opinião pública dos dias atuais. Chamo isso de síndrome do medo.

Pois fiquei extremamente satisfeito com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de acatar a representação do PSDB e suspender a propaganda do PT veiculada em rádio e televisão na qual o medo era o personagem principal.

A alusão à gestão do PSDB na presidência da República ao citar os “fantasmas do passado” era tão clara, falsa e ofensiva, que justificou a liminar do TSE.

Difundir a política do medo é um recurso emocional antigo e já foi muito usado por diversos partidos em disputas presidenciais em todo o mundo. Lembro-me da campanha do partido Republicano na Era Bush, quando se recordava os temores do 11 de setembro.

Estrategistas de campanhas eleitorais dizem que há duas maneiras de mexer com as emoções dos eleitores: o medo e a esperança. Pelo meu lado, que vivi outros tempos, em que campanha eleitoral era acima de tudo disputa de ideias e propostas, sempre acreditei que a melhor maneira de falar ao eleitor é utilizar o recurso da verdade.

Um partido responsável deve apontar erros, apresentar alternativas, mostrar seu plano de trabalho para garantir avanços necessários para promover o crescimento econômico do País, e, assim, mostrar como pode reduzir as desigualdades sociais, controlar a inflação e promover investimentos em infraestrutura para garantir o progresso da Nação.

A função de uma campanha eleitoral não é mistificar, mentir, assustar e promover a discórdia social, açulando o ódio entre as pessoas. Ao contrário: é fortalecer a democracia por meio da divergência de ideias e de propostas em relação ao País. Neste aspecto, a boa campanha é aquela que reafirma compromissos com a Constituição, enaltece os valores éticos e morais e defende a transparência no uso dos recursos públicos.

O PT foi muito criticado por ter veiculando uma propaganda falando dos “fantasmas do passado” que, paradoxalmente, estão cada vez mais presentes no dia a dia deste governo. Ficou evidente a tentativa de enganar e criar uma ideia falsa sobre a história recente do Brasil. Por essa razão, o TSE considerou condenável em todos os sentidos a campanha do medo.

Como afirmou recentemente o ex-presidente Fernando Henrique o “passado” é o governo do PT que está há 12 anos no Poder. Milhares de jovens desconhecem a luta contra a inflação e a estagnação econômica dos anos 70 e 80. Eles conhecem apenas um passado: aquele que se aproveitou das conquistas do Plano Real, da estabilidade econômica, do controle imposto pela lei de responsabilidade fiscal e, posteriormente, do bom momento vivido pela economia mundial, no período de 2002 a 2008.  

Mas os brasileiros estão percebendo as contradições elementares do quadro social. Os gastos imensos em obras de caráter duvidoso; a corrupção corroendo de maneira acintosa todas as instituições; a dramática desigualdade regional; a carga tributária escandalosa; os juros insuportáveis; os conflitos nas cidades e no campo; a carestia dos alimentos; enfim, todas essas mazelas impulsionam o desejo de mudança.

Não estamos mais preocupados com o passado e nem tememos o futuro – ele poderá ser muito melhor. Estamos com medo é do presente: não sabemos até onde vai o desespero daqueles que perderam o rumo da história e o que poderão fazer diante da perspectiva da perda do poder.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB/MS 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ibope cristaliza desejo de mudança

            A última pesquisa do Ibope não abriu esperança para a senhora presidente e sim desventura. Na verdade, é uma questão de campo de visão: Há que se considerar que a aferição aconteceu exatamente no pico de maior exposição da presidente no horário eleitoral gratuito de TV, com a chamada “propaganda do medo”.  Ou seja, os três pontos percentuais constituíram fruto da insistente e persistente presença da presidente nas mídias televisiva, radiofônica e da imprensa escrita e digital, no esforço de seu marketing para focalizar a sua imagem. Para mim, esses índices minoritários comprovam apenas que o resultado foi pífio.

Se considerarmos as margens de erro sua preferência pode estar estagnada no mesmo patamar da pesquisa anterior.

Na verdade, a avaliação de seu governo piorou. O desempenho entre o regular e o ruim suplanta com boa margem o que se apresentou de bom. Nas simulações de segundo turno ela cai significativamente. Nos quesitos ruim e péssimo os índices são crescentes. A vontade de mudança é forte.  Nestes aspectos, a pesquisa Ibope mostra uma crescente fragilização do governo.

Acredito que 2014 será a grande chance de mudarmos os rumos do País!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Artigo: O valor da descortesia

*Ruben Figueiró

Brasília assistiu nesses dias a uma romaria de prefeitos atendendo o chamamento de sua entidade corporativa. Recebi muitos deles que me manifestaram frustração, aliás, já repetida nos eventos anteriores. Disse-lhes que enquanto não se tiver na presidência da República um municipalista da gema, os municípios brasileiros não teriam a consideração e a assistência que merecem.

Prova de desconsideração ocorreu nesta XVII edição da Marcha dos Prefeitos a Brasília. Durante três dias, o debate girou em torno da crise dos municípios e a conjuntura eleitoral. Nada mais natural que na ocasião os três mil gestores municipais recebessem a “visita” dos candidatos à Presidência da República. Pois bem, a presidente Dilma Rousseff revelou uma face inusitada que, sinceramente, dela não esperava. Ao negar cumprimentos aos prefeitos por preferir um contato direto com a população, conforme divulgado pela mídia, Dilma negou um ato nobre da liturgia do Poder e com esta atitude desrespeitou a autoridade daqueles que chefiam as células mater da federação. Afinal, ela não é apenas uma pré-candidata, é a chefe máxima da Nação. Sua descortesia deixou como mensagem subliminar ser, para ela, positiva a concentração da administração do Brasil no Poder Central.

O que, na minha visão motivou a sua lamentável ausência na Marcha dos Prefeitos foi a sua convicção de que não poderia fazer mais promessas aos prefeitos porque as que fizera no passado hoje constituem um risco n’água e motivam a generalizada decepção dos gestores municipais com seu governo, o que motivou vaias nas duas edições anteriores do evento. Na verdade, até agora, a senhora presidente só têm transferido encargos e ônus financeiros aos municípios com seus programas mirabolantes.

Entendo, e isso manifestei na Assembleia Nacional Constituinte lá nos idos de 1987-1988 pela defesa do que se chamou de imposto único. Ou seja, os tributos seriam transferidos automaticamente, na chamada boca do cofre, para os três entes federativos: União, Estados e Municípios, nos percentuais que lhes coubessem. Assim, os Municípios deixariam de ficar com o pires na mão, rogando migalhas a presidentes e governadores eventuais.  Minha proposta não foi aprovada e infelizmente o miserê das municipalidades é uma triste realidade de hoje.

Muita coisa precisa mudar e 75% da opinião pública já sabem disso. Mas, muito além de ter conhecimento, quer escoimar do poder a prática arraigada ao longo da última década do malfeito.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS

terça-feira, 20 de maio de 2014

Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015

Não se pode encarar o novo programa agrícola do governo que adicionou mais recursos à produção no campo como uma benesse ao setor produtivo que sugira uma manifestação de gratidão da senhora Presidente. É sim um gesto de reconhecimento pelo muito que o agronegócio tem contribuído para o PIB nacional.

Oferecer recursos oficiais ao setor produtivo rural é um dever de Estado e não uma ação com características eleitorais como o Palácio do Planalto quer fazer crer. Há que ressaltar que um dos maiores reclamos dos agricultores está na ampliação do seguro agrícola, hoje minimamente contemplado, se for levado em consideração que o país está iniciando um ciclo de abalos climáticos que poderão prejudicar os resultados da próxima safra agrícola com consequências inarredáveis para o desestímulo dessa atividade rural de vital importância para a economia nacional.

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Comentário sobre veto da presidente Dilma à aliança PT – PSDB em MS

Após a decisão da presidente Dilma contra a aliança PT – PSDB em MS, qual é a sua avaliação para as eleições de 2014 em seu estado?

A decisão da presidente Dilma, a mim, não causou surpresa. Isto porque tenho bem avaliado o esforço do senador Delcídio junto à cúpula do seu partido para convencê-lo da importância de um acordo político eleitoral com o PSDB em nosso Estado, sempre resguardadas as nossas instâncias programáticas em nível nacional.

Devo dizer que tão logo assumi o mandato de senador, mantive três encontros, pelo que me recordo, com o governador Puccinelli. Todos por minha iniciativa objetivando restabelecer os acordos eleitorais anteriores ao pleito municipal em Campo Grande, em 2012, e que tantos conflitos tiveram nossas legendas PSDB-PMDB.

Sua Excelência mostrou-se  superior, só admitindo um acordo se o candidato a governador – assinalo, não o que se apresenta hoje como pré-candidato – fosse de sua legenda.

Eu apresentara o nome do deputado Reinaldo Azambuja. Diante da posição enfática do senhor governador e analisando o quadro político necessário para as eleições deste ano, as lideranças do meu partido, especialmente os deputados Márcio Monteiro, presidente do Diretório estadual, e Reinaldo Azambuja, a nossa maior expressão política, ambos a convite do senador Delcídio Amaral, iniciaram conversações, animados pela coincidência de propósitos para a implantação de uma arejada liderança governamental que extirpasse os vícios, sobretudo da prevalência de uma só voz autoritária que causa espécie e revolta de nossa população.

A essa tese, como liderado e por entender que a aliança com o senador Delcídio para governador permitiria a construção de dois eixos de sustentação no meu partido: primeiro, a possível manutenção da cadeira no Senado, que hoje ocupo, ao PSDB, na figura de Reinaldo Azambuja, para dar continuidade a conquista quando da eleição da senadora Marisa Serrano em 2006. O segundo eixo seria aquele sobre o qual o PSDB participaria ativamente da administração estadual, o que permitiria a condução de uma política firme aos compromissos da socialdemocracia, na qual o cidadão e os meios tradicionais de nossa produção econômica com a pecuária, agricultura, comércio e a nossa nascente indústria, fossem foco primordial do governo de Delcídio.

Não me arrependo de assim me ter conduzido. Devo esclarecer que todos os procedimentos que foram tomados por Reinaldo,  Márcio, nossos deputados estaduais e demais lideranças, tiveram total conhecimento da comissão executiva nacional do partido, isto por meu intermédio, e ela nunca nos negou sua compreensão às tratativas então mantidas com o senador Delcídio.

Agora, respondo ao fulcro da pergunta. Vamos à luta. Márcio e Reinaldo já tomaram posições de vanguarda ouvindo as camadas diferentes da população, com o Pensando MS. Agora vamos, ao lado de outros partidos que se alinhem ao nosso pensamento sobre como governar o nosso Estado, vamos nos irmanar na campanha eleitoral que já está nas ruas. Desses entendimentos, de minha parte, gostaria que o candidato ao governo fosse Reinaldo Azambuja, pois o povo para tanto o tem convocado.

O senhor será candidato?

Não. Não é minha intenção. Sinto-me extremamente confortado por estar prestando no Senado serviço ao nosso Estado - o que tem me concedido elogios e incentivos. Lembrando São Paulo, por mais de 60 anos “combati o bom combate”. É chegado o momento para ceder o lugar aos mais jovens, princípio de renovação de valores que sempre defendo para o exercício do múnus público. Mas asseguro, continuarei na militância porque jamais abandonarei os ideais que trago desde a juventude.

Artigo: Homens que fazem falta

*Ruben Figueiró

Um dos personagens civis que mais influenciaram os rumos da história brasileira entre 1945 e 1968 completaria 100 anos, se vivo estivesse. Carlos Lacerda nasceu em 30 de abril de 1914 no Rio de Janeiro. Faleceu em 1977. Hoje, passados tantos anos e com visão mais ampliada dos fatos históricos, percebo com clareza, concordando com o cientista político Melchiades Cunha Júnior que Lacerda “se inscreveria, ainda que não sem controvérsia (como tudo nele) no panteão dos brasileiros, que sendo os mais capacitados de sua época, não chegaram a presidente: Rui Barbosa, Oswaldo Aranha, San Tiago Dantas, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães”. Resta-nos cultuar suas memórias. Ficaram seus exemplos. Para mim, determinados homens estão fazendo falta nesse país.

Era impossível ser indiferente a Carlos Lacerda. Era de uma inteligência que se exprimia como um raio. Empolgava a todos e fez uma legião de fãs que admiravam suas atitudes tempestuosas marcadas pelo verbo impiedoso com que fustigava os adversários. Ele despertou o ódio e a admiração de milhões de brasileiros entre as décadas de 40 e 70 do século passado. Os adversários chamavam-no de direitista, fascista. Ele foi inicialmente comunista, depois anticomunista e virou líder da direita. Mas não se pode classificá-lo de fascista ou reacionário.

Na Câmara, Carlos Lacerda se destacava por ser um parlamentar brilhante, culto, cáustico nas críticas aos adversários. Carbonário quando se tratava de mal feitos do governo. Considerado um dos maiores tribunos do Parlamento. Eu ia sempre assistir as sessões e, jovem ainda, me empolgava com as orações de Lacerda.

Fui seu admirador. Algumas vezes, ainda na mocidade, dele divergi, já encanecido nas lutas, cheguei a condenar suas atitudes. Lacerda demonstrou no curso do tempo ser um “demolidor de presidentes”. Abjurando o comunismo, com teses que poderiam ser entendidas como golpista de direita, tanto contra Getúlio, em 1945 e 50; contra JK, em 55; Jânio, em 61; Jango, em 64. Mas Carlos Lacerda também provou armas diferentes. O que ele desejava realmente era o estabelecimento de uma ordem democrática estável. Foi quando, surpreendentemente, procurou JK na Europa, e Jango no Uruguai, para organizarem a Frente Ampla, movimento para restabelecer a democracia no Brasil e que teve vida efêmera, por ação discricionária do regime militar.

Conheci Carlos Lacerda em 1953. Eu, estudante no Rio de Janeiro, ele, jornalista fogoso e diretor da Tribuna da Imprensa – excitando a oposição a Getúlio Vargas, então presidente da República. Eu tive com outros universitários a oportunidade de manter rápidos encontros com Carlos Lacerda, que estimulava-nos a participar da vida pública.

Carlos Lacerda procurou o poder, não serviu-se dele, lutou sim, a seu modo destemido pela sua coragem pessoal e verbo vulcânico, injusto com alguns, mas jamais sabujo de muitos que tinham o poder. Como afirmara: “O poder não é um cargo de sacrifício. Ao contrário, é uma fonte maravilhosa de alegria”.

Saudar a memória de Carlos Frederico Werneck de Lacerda é saudar a memória de todos aqueles que tombaram no campo democrático para que hoje se pudesse dizer ufano: o Brasil é um país voltado para o futuro, com expectativas de ser exemplo para o mundo.

*Ruben Figueiró é senador pelo PSDB-MS